Este blog tem por objetivo principal tratar de assuntos vários relacionados à Língua Portuguesa, principalmente no que diz respeito à produção e leitura de textos.

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Artur Freire Ribeiro On 16.3.12




Por Sírio Possenti



De vez em quando, cito fatos que mostram que nossa língua é diferente da descrita pelos manuais de redação e mesmo pelas gramáticas tradicionais. Manual de Redação é questão de política interna. Uma editora ou um jornal podem evidentemente decidir pela adoção de um para regular a escrita dessa "empresa". Nenhum problema quanto a isso. É mais ou menos como a decisão do exército ou de um time de futebol de usar uniforme: tem alguma relação com a moda e o vestuário, mas trata-se de opções basicamente internas (torcedores e fãs podem usar as mesmas cores nas ruas). Importantíssimo, o efeito das decisões é passageiro: fora do quartel, os soldados estarão de roupa civil e, depois do jogo, os atletas abandonam o uniforme.





Depois do expediente na redação, os jornalistas também voltam ao português das ruas. Para ter certeza disso, bastaria ouvi-los nos bares e nas casas. E nas entrevistas que conduzem, claro. Mas não só. Vejam-se os casos abaixo.



L. F. Pondé, colunista da Ilustrada, escreveu em 27/02/2012: "Só levo a sério um argumento como este (quem me lê deve ser objeto de minha atenção) se nele estiver em jogo as leis do mercado, e olhe lá". Pelos manuais, ele deveria ter escrito "estiverem" (as leis do mercado estiverem). A inversão da ordem sujeito / verbo condiciona concordâncias assim desde sempre. E não é o caso de dizer que se trata da escrita de um jovem moderno, porque é fácil ver, por seus textos, que ele é um sujeito do século XVIII.



Considere-se este outro dado, do interessante texto de Hélio Schwartsman (Ilustríssima, 11/02/2012, p. 5): "Como mostram Ori e Rom Brafman (...), a existência de pessoas 'do contra' ('dissenters', em inglês) são nossa melhor esperança". O que explica essa ocorrência de "são" é o grande número de plurais à esquerda deste verbo. Os melhores candidatos são "mostram" (se um verbo está no plural, ou outro também deve estar, pensamos, sem saber que pensamos) e "dissenters", embora entre parênteses. Com seu olhar "cientificista" (às vezes exagerado, acho), o autor talvez encontre uma explicação melhor que esta.



Outro: os "olhos" dos textos de jornal são redigidos pelo editor da página a partir do texto. Frequentemente, traduz passagens do texto completo. Nem sempre fielmente, seja no que se refere ao sentido ou ao estilo. O olho do artigo "Em nome de Amália", de João Santana (Folha de S. Paulo de 06/03/2012) é "Amélia é uma injustiçada; há algo mais 'feminista' e poético do que uma mulher preferir fazer amor com seu marido do que gastar o dinheiro dele?". Sim: "preferir do que", construção que todos os pequenos guias de redação condenam. O manual de redação do próprio jornal deve condenar (não vi, mas aposto minha coluna!). Mas quem se dobraria ao manual diante de tamanha certeza de estar "correto"? Quem ainda vê aí um erro?



Um adendo: na Piauí do mês, uma das falas da mulher americana (há dois casais na cena etc.) em um desenho é: "Na verdade, às vezes prefiro acompanhai das mulheres que a dos homens...".



Os três casos deveriam obrigar a uma concepção de língua variável e de regras submetidas a diversos condicionantes, às vezes em luta na mesma frase. E a abandonar uma doutrina simplória do certo e do errado. Línguas são como outras manifestações culturais: inerentemente variáveis, mesmo no estrato que se considera superior. Caçar erros é pobreza mental.



Disponível em: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5665083-EI8425,00-Outras+notas.html