Este blog tem por objetivo principal tratar de assuntos vários relacionados à Língua Portuguesa, principalmente no que diz respeito à produção e leitura de textos.

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Artur Freire Ribeiro On 23.9.11


O uso do pronome CUJO
Muita gente quer saber onde está o dito “cujo”.
Caro leitor, não se assuste nem fique imaginando “coisas”. A verdade é que recebi dezenas de mensagens querendo “notícias” do pronome relativo CUJO.
Tenho um colega que costuma dizer que o pronome CUJO é um ser “semimorto”. Segundo ele, só existe na língua escrita. Todos entendem o sentido de uma frase em que apareça o pronomeCUJO, mas ninguém se lembra dele na hora de falar.
Isso se comprova na fala do brasileiro. Observe a si mesmo e depois me diga se não é verdade. Você falaria, por exemplo, no seu dia a dia, uma frase do tipo “Estava falando com o vizinhoCUJO filho foi contratado pelo Flamengo”?
Acredito que todos entenderiam a frase, mas que dificilmente seria usada na fala coloquial. Na verdade, a presença do pronome CUJO caracteriza o uso formal da língua portuguesa. Praticamente só é usado na linguagem escrita.
O curioso, entretanto, é que todos ou quase todos entenderiam a frase, ou seja, que “eu estava falando com o vizinho e que o Flamengo contratou o filho desse vizinho”.
Vamos, então, responder concretamente às perguntas do leitores:
1o) Só podemos usar o pronome CUJO quando existe uma relação de “posse” entre o antecedente e o substantivo subsequente. O “vizinho cujo filho” significa “o filho do vizinho (=o filho dele, o seu filho)”.
2o) Jamais usamos artigo definido entre o pronome CUJO e o substantivo subsequente. Falar “vizinho cujo o filho” está errado. O pronome CUJO sempre concorda em gênero e número com o subsequente: “vizinho CUJA FILHA, CUJOS FILHOS, CUJAS FILHAS“.
3o) O pronome relativo CUJO deve vir antecedido de preposição, sempre que a regência dos termos da 2ª oração exigir:
“Este é o vizinho DE cujo filho ninguém gosta.”
(O verbo GOSTAR é transitivo indireto = GOSTAR DE alguma coisa – “Ninguém gosta DO filho do vizinho”)
“Este é o vizinho EM cujos filhos todos confiam.”
(CONFIAR EM = “Todos confiam NOS filhos do vizinho”)
“Este é o vizinho A cujos filhos fizemos mil elogios.”
(=”Fizemos mil elogios AOS filhos do vizinho”)
“Este é o prefeito COM cujas ideias não concordamos.”
(=”Não concordamos COM as ideias do prefeito”)
“Este é o prefeito CONTRA cujas ideias sempre lutamos.”
(=”Sempre lutamos CONTRA as ideias do prefeito”)
Você está achando tudo muito estranho? Que o CUJO é muito feio?
Tudo bem, eu respeito a sua opinião. Mas não esqueça: nem tudo que é feio ou estranho está errado.

INTERVIR ou INTERVIER?
Não devemos confundir o INFINITIVO dos verbos (=INTERVIR) com o FUTURO DO SUBJUNTIVO (=INTERVIER).
Use o seguinte “macete”:
Quando o verbo vier antecedido de preposições (=A, DE, PARA…), use o INFINITIVO:
“Ele foi obrigado A INTERVIR no caso.”
“Ele foi proibido DE INTERVIR no caso.”
“Ele tomou esta decisão PARA INTERVIR no caso.”
Quando o verbo vier antecedido das conjunções (=SE ou QUANDO) ou do pronome QUEM, use oFUTURO DO SUBJUNTIVO:
SE o presidente INTERVIER no caso, poderá haver protestos.”
QUANDO o presidente INTERVIER no caso, o problema será
solucionado.”
QUEM não INTERVIER no caso será duramente criticado.”
Leitor aponta um erro jornalístico:
“O partido tem uma histórica dissidência de 20 votos, que poderá se ampliar, sobretudo na bancada de Minas Gerais, se o governador não intervir nas discussões”.
O leitor tem razão. O certo é “…SE o governador não INTERVIER nas discussões”.

Quando eu VIR ou VER?
Leitor quer saber qual é a forma correta: “Quando eu VIR ou VER uma amiga, falarei com ela.”
A presença da conjunção subordinativa temporal QUANDO indica que devemos usar o verbo VERno FUTURO DO SUBJUNTIVO. E aqui está o problema: VER é INFINITIVO. O FUTURO do SUBJUNTIVO do verbo VER é:
Quando eu VIR, tu VIRES, ele VIR, nós VIRMOS, vós VIRDES e eles VIREM.
Portanto, o certo é: “Quando eu VIR uma amiga, falarei com ela.”
Observe outros exemplos:
SE vocês VIREM a verdade, ficarão surpresos.”
“Devolverei o documento, QUANDO nos VIRMOS novamente.”

Dedicação A ou À você?
Leitor quer saber a minha opinião a respeito da crase na frase de uma antiga propaganda: “Casas XYZ. Dedicação à você e respeito ao Brasil…”
Antes de “você”, jamais haverá crase, pois não há artigo definido.
Eu tenho respeito “a você”, e as Casas XYZ prometem “dedicação a você”.
Artur Freire Ribeiro On 14.1.11


Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Um fenômeno que se tornou agudo nesta fase da história desafia estudiosos - sociólogos, psicólogos, psicanalistas, antropólogos, cientistas políticos, filósofos, analistas do discurso etc.
(Alguns dirão que eu não deveria me ocupar de questões como esta, que deveria me restringir às questões linguísticas. Ocorre que uma das questões fundamentais das diversas de que tratam os estudos da linguagem é exatamente esta: em cada sociedade, há restrições sobre o que se pode ou não se pode dizer e sobre espaços ou contextos em que se podem dizer coisas que não se podem dizer em outros - por exemplo, quais discursos são privados (e, portanto, mais livres, embora não circulam, ou por isso mesmo) e quais são os discursos pelos quais seus "autores" podem pagar (ou receber): a noção de autoria se caracteriza no ocidente, entre outros, por dois traços complementares: o "autor" pode ser pago por suas obras, mas, em compensação, pode ser responsabilizado - preso ou ameaçado - pelo que diz. A propósito, é claro que neste texto não serão encontradas algumas palavras e expressões que eu diria em outros espaços, para me referir àqueles de que vou falar...).
A questão de que vou tratar muito brevemente foi formulada de forma precisa, a meu ver, por Renato Janine Ribeiro (Para quem não conhece o 'Estadão'), há quase um ano, em artigo publicado no Estado de S.Paulo. Janine fazia uma análise do comportamento do dito jornal. O mote era a proibição pela justiça de publicar certas notícias sobre o filho de Sarney, Fernando (todos os dias o jornal publica uma nota, cujo título é O Estado está sob censura há XX dias (já são mais de 500). A questão que Janine formulou está expressa no seguinte trecho, que vou comentar brevemente, grifando o que mais me interessa:
"Mas, voltando ao fim da repressão política pelo Estado brasileiro, isso não quer dizer que nossa sociedade tenha reconhecido o direito à divergência. Um espírito maniqueísta, opondo bem e mal, domina muitos cidadãos que falam sobre política, costumes e o que seja em nosso país.
Por incrível que pareça, nesse ponto o Estado brasileiro e suas instituições parecem mais adiantados que a sociedade. Comecei este artigo criticando opiniões de leitores e internautas, justamente porque eles condenam seus desafetos com mais rapidez do que faria qualquer tribunal, hoje, em nosso país.
Em outras palavras, a democracia por vezes está mais forte nas leis e nas instituições do que no povo do qual - segundo o artigo 1º de nossa Constituição - ela emana. Ela ainda é um texto, mais que uma prática".
No segundo dos parágrafos citados, Janine se refere ao começo de seu texto, em que comenta que lê "nas cartas de leitores a O Estado de S.Paulo e, sobretudo, nos comentários de internautas em sua página na web ..., "expressões preconceituosas, carregadas de ódio".
Pois bem, este é o problema. O mote poderia ser a tuitada da tristemente famosa Mayara, que, logo depois das eleições recentes, sugeriu que se afogassem nordestinos. Também poderia considerar como pretexto os comentários (se é que assim podem ser chamados) de leitores, em geral anônimos, opinando sobre colunas que tratam de questões polêmicas. O tema pode ser a extradição de Battisti, a eleição de Dilma, uma discussão da pedofilia, ou, o que poderia parecer mais neutro, a questão do feminino da palavra "presidente".
Há comentários civilizados. Concordam, discordam, são mais ou menos veementes, mas são civilizados. Poderiam ser expostos em público e assinados. Mas muitos são apenas asquerosos: revelam uma burrice espantosa, desconhecimento total do tema. Mas, principalmente, são grosseiros, agressivos e, quase invariavelmente, não são assinados. Ou são assinados por óbvios - em geral, pouco inteligentes - pseudônimos.
O fenômeno permite numerosas perguntas, cujas respostas não são evidentes (só mesmo seguindo o "método" dos comentários alguém poderia supor que tem respostas claras: segundo eles mesmos, esses "comentadores" poderiam ser considerados simplesmente idiotas e seus autores deveriam ser condenados ao linchamento).
Algumas perguntas que me ocorrem são:
a) Esses cidadãos são simplesmente ignorantes ou fingem sê-lo porque acham que dizer baixarias é engraçado? Seu problema é apenas o baixíssimo nível de exigência quando se trata de humor?
b) É o anonimato a condição que lhes permite dizer barbaridades? Em outros termos: essas pessoas diriam as mesmas coisas se fossem identificadas? Ou em público?
c) Suas grosserias são manifestações "fantasiosas", "ficcionais", ou são a expressão do que tais pessoas de fato pensam?
d) Seu comportamento é coerente com o que elas escrevem anonimamente, ou trata-se de "gente boa" (bons pais, bons filhos, bons amigos, bons namorados, bons motoristas) que aproveita o anonimato para expressar seu "lado obscuro" (a propósito, vale a pena ler, de Elisabeth Roudinesco, O lado obscuro de nós mesmos; uma história dos perversos. Rio: Zahar)? Vale anotar que os americanos estão discutindo o grau de influência de postagens na internet sobre o rapaz que cometeu o atentado que feriu uma deputada e outras pessoas e matou uma menina na semana passada; Sara Palin patrocinava um espaço no qual cabeças de diversos políticos eram alvos. Brincadeira? O fato é que foram retirados ao ar...
e) A psicanálise ensina que o ser humano não se caracteriza só pela razão, pela consciência, mas também por um conjunto de pulsões, de instintos, que a civilização domina e controla. Se a tese for verdadeira, essas manifestações grosseiras e agressivas seriam apenas a expressão privada e anônima de tais pulsões (de matar, de humilhar, de agredir o diferente, seja uma posição política, uma preferência por um clube de futebol, uma opção sexual etc.)? Se este for o caso, podemos considerar que estamos diante da necessidade de um novo aprendizado em relação ao uso do espaço privado; ou será que os que assim se manifestam o fazem como nos sonhos (não controlamos os sonhos...) ou como se contassem piadas entre amigos depois de beber? É até possível que a grosseria e a agressividade de seus pequenos escritos seja uma das condições para que se comportem civilizadamente em público (ter armas de brinquedo não torna necessariamente as pessoas violentas etc.).
f) Mas será que não são eles/elas que, em grupo (sozinhos, em geral são covardes - aqui, eu reprimo o desejo de escrever outra palavra), atacam os diferentes, nas ruas, nas festas, nos estádios, nas prisões?
g) E se forem doentes, como Jared Lee Loughner, o atirador do Arizona?
Perguntas!
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