Este blog tem por objetivo principal tratar de assuntos vários relacionados à Língua Portuguesa, principalmente no que diz respeito à produção e leitura de textos.

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Artur Freire Ribeiro On 7.11.10
Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Há algumas semanas, comentei aqui a posição de João Ubaldo Ribeiro sobre "vícios" de linguagem. Alguns dados talvez lhe soassem mais como manias - "inicializar" seria o caso mais votado, já que nove em cada dez palpiteiros mencionam o verbo.
Volto ao tema dos intelectuais falando de língua. No meio de uma razoável matéria sobre questões de língua, suas mudanças, a apropriação de certas construções por escritores etc, Daniel Piza, em sua coluna semanal no Estado de S. Paulo (25/7/2010) escreveu, comentando o que considera "o equívoco de acordos ortográficos" de quererem ser mais do que são: "isso sem entrar no mérito dos critérios, que eliminaram acentos como em 'voo' e mantiveram em 'já', como se houvesse outra pronúncia para a vogal senão a aberta".
É obviamente uma questiúncula. O que me leva a comentar o caso é que ele é sintomático de como a língua é mal analisada. Fala-se de dicionários, de mudanças, da diáspora das palavras, da relação com outras línguas etc. sem dizer bobagens porque são questões muito gerais e sobre elas a unanimidade é total. Soa sábio e moderno ao mesmo tempo. É mais ou menos como ser a favor da conservação do meio ambiente e dos direitos humanos. Todo mundo sabe dizer coisas sensatas sobre isso. O complicado será se alguém perguntar o que fazer com uma perereca ou com determinado homem violento (prende, trata como louco, condena à morte?). Questões específicas não podem ser tratadas a enxadadas.
Pois o acento em "já" não é para marcar a abertura da vogal "a". É para marcar sua tonicidade: ou seja, decidiu-se que a vogal dessa palavra é marcada por um acento gráfico porque ela é tônica, e não porque é aberta. Para entender a diferença, compare-se "dá" do verbo "dar" com a contração "da", de "de+a". "Dá" é um monossílabo tônico; "da" é átono. Uma análise acústica mostraria que, em "dá casa" e em "da casa" (o exemplo pode não ser muito bom), os "da" são diferentes. Mas as duas vogais são abertas, embora, claro, a abertura seja maior em "dá".
Menos aberta mesmo, perceptivelmente, é a vogal "a" em palavras como "antes" e "lã" (tanto que há quem defenda que não é a mesma vogal de "dá!, mas outra, uma nasal). Observe-se que as duas são tônicas: a diferença destes casos em relação aos de "já, dá", é a nasalização, que co-ocorre com alçamento ou fechamento: os lábios se aproximam mais para proferir o "a" de "antes" do que o de "dá" e mesmo o de "da".
Logo, a observação de Piza é um equívoco. Não produz nenhuma consequência grave na vida quotidiana, mas mostra que os intelectuais não conhecem gramática (sabem defender ou atacar generalidades e listar sempre os mesmos dez casos que consideram uma vergonha, mas não passam disso). Ocorre que um erro desta dimensão, em outros domínios, pode produzir catástrofes. Se um controlador de vôo trocar uma categoria por outra, como Piza em seu texto, o avião pode pousar fora da pista ou bater em um prédio.
Disse que o efeito de um erro assim pode não se grave. Retifico: é gravíssimo. Quase todas as autoridades educacionais cometeriam o mesmo erro. Muitos professores ou pais de alunos que vão dar palpites nas reuniões pedagógicas (às quais é bom que vão, eu acho; mas seria bom que pressionassem na direção certa) não fazem esta distinção e outras parecidas. É uma das razões - porque pequenos erros desse tipo são cometidos aos milhares - pelas quais nossas escolas são o que são. É a tal da santa ignorância, que produz ideias de jerico segundo as quais, por exemplo, Roma "de trás pra frente" é amor, tese que não considera as diferenças de pronúncia do "r", pelo menos; ou, pior, que além "de trás pra frente" é mela, sem dar-se contar de que, em além a vogal é um e, e emmela a vogal é um é. Mais que isso: mela começar com m e além termina com y nasalizado, porque além se pronuncia com um ditongo final e nasalizado, como, aliás, as gramáticas informam.
Ou seja: aviões caem. Ou são derrubados todos os dias.