Este blog tem por objetivo principal tratar de assuntos vários relacionados à Língua Portuguesa, principalmente no que diz respeito à produção e leitura de textos.

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Artur Freire Ribeiro On 26.11.09



Faz algum tempo que vemos uma peculiar propaganda da Sadia na TV. Uma menina fala de diversos tipos de família, diferentes das definidas em dicionário. O final contém um erro de análise: a menina diz que tudo fica no plural. E plural tem sempre um S, S de Sadia.

O Caetano talvez dissesse que isso é bobagem, mas é distinguindo coisas assim que, por exemplo, um aluno se torna lingüista, ou, é não vendo as diferenças que alguém não se torna nunca, mesmo lendo Saussure.
Bachelard diz que se adquire espírito científico derrubando obstáculos. Um dos seus exemplos aparentemente banais é que não é a madeira que boia na água, mas é a água que opõe resistência à madeira: "se tentarmos com a mão afundar um pedaço de pau na água, ele resiste. Não é costume atribuir-se essa resistência à água", diz ele. (Vou ler esse texto com os calouros de linguística no ano que vem, eles que me aguardem...).
Uma dessas "coisas assim" que temos que aprender a distinguir, para não confundir o cru e o mal passado, é uma regra estrutural básica: que, na língua, as substâncias - os elementos - não valem por si; o que vale é sua posição no sistema.
Por isso, o S de Sadia não é o S de plural. Em português, o plural é marcado no final da palavra ("quaisquer" é outro problema, assim como "pãezinhos" e "papeizinhos", entre outros).
Os movimentos musculares que se fazem para produzir um s podem ser eventualmente os mesmos, esteja ele no começo, no meio ou no final de uma palavra. Mas a função do s em cada um desses casos é diferente. E é só no final de nomes e de adjetivos que significa plural (em português, plural quer dizer apenas 'mais de um'). Por exemplo, em "sapatos" a marca de plural é o último s, mas não o primeiro. Se o primeiro significasse plural, "sapato" já estaria no plural, mesmo sem o s final.
Ora, "Sadia" começa com S, que, assim, não é um S de plural. Seria plural um eventual S no final, por exemplo, em "sadiaS", que não é nome de nenhuma empresa.
Mesmo no final o s não significa sempre plural. No final de "lavas" ou de "tens", por exemplo, significa 'segunda pessoa'. Como saber? Considerando que ora se trata de verbos, ora de nomes ou de adjetivos. É bem mais fácil do que distinguir centenas ou milhares de tipos de formigas. Ou como distinguir um chester de um peru.
É uma simplificação, um equívoco de responsabilidade da agência, certamente. De qualquer forma, é bom que a Sadia não cometa erros semelhantes na hora de ir acrescentando os ingredientes da salsicha.
Nada como um dia depois do outro
Quem ocupa cargos e está exposto ao público, aqueles cujas palavras são arquivadas podem pagar um preço alto por qualquer destempero: Dilma teria dito "apagão nunca mais", ou algo assim, e logo veio um; Serra disse que há problemas de gestão do governo federal e logo caíram 4 vigas no Rodoanel (nem é bom comentar os detalhes que o noticiário nos fornece...); Beluzzo quase autorizou a torcida a linchar o juiz por causa de um erro contra seu time, mas no jogo seguinte um erro ainda mais grave favoreceu de seu time. O que ele fez? Nada. Nada de nada.
Corda em casa de enforcado
De todos os colunistas, talvez o mais tucano de todos seja Gaudêncio Torquato, que se apresenta como jornalista, professor titular da Usp e consultor político e de comunicação (seus textos em geral saem da gaveta "consultor político", eu acho). Escreve aos domingos no Estadão. No dia 15/11, disse que a oposição também vive um apagão (político). Para exemplificar, disse que Serra se opõe às duas vigas de Lula (PAC e bolsa família), mas...
Deve ter escrito seu texto antes de sábado. Caso contrário, não falaria de Serra e de vigas assim no mais...



Sírio Possenti
de Campinas (SP)
Artur Freire Ribeiro On 10.11.09
Uma repórter que entrevistou Lula em Londres começou pedindo desculpas por ter olhos azuis. Foi sem dúvida uma boa sacada para provocar o presidente ou para fazer rir, mais precisamente, rir dele, talvez acuado. Mas a pergunta revelou também um erro de lógica. Exatamente como o do "ítalo-descendente de pele branca e olhos claros" que entrou com um pedido de explicação no STF "contra" o presidente, por causa de sua declaração culpando a "gente branca de olhos azuis" pela crise. Clóvis Victorio Mezzomo afirma que se sentiu pessoalmente ofendido... (Folha de S. Paulo, 4/4/2009, p. B10).


Alguns leitores cometeram a mesma falácia em mensagens que me mandaram pelo e-mail que Terra Magazine fornece para os que querem me desancar ou, eventualmente, manifestar concordância. Diziam que eram brancos etc. e que se sentiram ofendidos. Como se Lula tivesse se referido a eles.

Uma das "técnicas" que se aprendem já no segundo dia das aulas de lógica é que uma coisa é dizer, por exemplo, que "todos os cariocas são brasileiros" e outra que "todos os brasileiros são cariocas". A segunda sentença ou proposição não se deduz da primeira, porque não se pode concluir mais de menos. É que o predicado de uma afirmativa não é universal, ou distribuído, mas sim particular. Portanto, quando a sentença é convertida e ele vai para a posição de sujeito, não pode ser universal (todos); só pode ser particular (alguns). "Os cariocas são brasileiros" significa "todos os cariocas são alguns dos brasileiros". Depois, aprende-se que isso se chama de falácia do consequente ("se o carioca é brasileiro, então o brasileiro é carioca" seria um exemplo dessa falácia).

Voltando à declaração de Lula: convertida em uma sentença com formato das que estão nos silogismos, ele teria dito que "todos os responsáveis por essa crise são brancos de olhos azuis", e não que "todos os brancos de olhos azuis são responsáveis por essa crise". Ou seja, que alguns brancos de olhos azuis são responsáveis - os banqueiros, os Madoffs etc. Pretender fazer parte desse grupelho é erro de lógica ou pura pretensão? Não sei o que é pior.

Aparentemente, ninguém mais estuda isso na escola, uma lástima. Um dia tive que fazer longo exercício de paciência diante de um interlocutor que lera em Freud que os chistes são breves e insistia em achar que todas as suas frases curtas (breves) deveriam ser chistes, como se Freud tivesse escrito que tudo o que é breve é chiste. Uma boa piada.

Ah, sim, como Lula também não deve ter estudado lógica, já que foi por pouco tempo à escola e a que mais frequentou era uma que formava torneiros mecânicos, embora tenha se dado melhor como orador (os oradores são cheios de falácias), respondeu à moça gentil e sorridente, sem esculachar sua falta de lógica. Talvez por não saber nada disso. Talvez por causa dos olhos dela.

Alguns leitores acharam que defendi Lula quando disse que a expressão que empregou não é racista. O texto pode ter soado assim a certos leitores, mas não é o que está escrito. Pelo menos, se o texto for lido logicamente. O que eu disse é que se costuma analisar de forma equivocada muitas das falas de Lula, como se não fosse ele o pouco escolarizado, mas sim os analistas. Diz-se que fala por metáforas quando se vale de comparações ou de metonímias, que acusou todos os brancos, quando não foi o caso etc.

E assim se comete outro erro de lógica, outra falácia: toma-se a crítica das análises erradas como se fosse uma defesa das declarações de Lula e até de suas ações de governo. Um leitor, para mostrar que eu estava errado defendendo o Lula apelou para as manifestações do MST, que o presidente deveria reprimir... E eu falei disso?

Deveríamos ler pelo menos o velho Aristóteles. Também sua Retórica, é claro. Ou mesmo algum manual com a lista das falácias mais comuns. Seria bem mais útil do que uma lista de regras gramaticais.


Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso e Questões para analistas de discurso.
Artur Freire Ribeiro On 7.11.09
A seguir, estão dois textos que dissertam sobre a legalização das drogas como solução para a violência no Rio de Janeiro.

Feita a pergunta O combate à violência no Rio de Janeiro passa pela legalização das drogas?, duas autoridades responderam por meio de texto.

Ao passo que o primeiro autor pensa que a resposta a essa questão seja positiva, o segundo dele discorda.

Leia e comente, deixando sua opinião.

Aos meus alunos, eis um bom tema para nossa próxima dissertação.

Um abraço,

Artur Freire Ribeiro





A guerra às drogas fracassou

Permitir o acesso às drogas: essa hipótese assusta qualquer pessoa de bom senso. Melhor que não haja acesso. Melhor ainda seria que nem sequer houvesse drogas. Mas não é essa a realidade.

A proibição prevista em lei não vigora. Drogas são vendidas em toda parte em que há demanda, independentemente da qualidade das polícias e dos gastos investidos na repressão. A guerra às drogas fracassou.

Como os EUA demonstraram ao vencer a Guerra Fria, nenhuma força detém o mercado. Pode-se apenas submetê-lo a regulamentações. É irônico que esse mesmo país defenda a erradicação das drogas ilícitas.

Eis o resultado do proibicionismo: crescem o tráfico, a corrupção e o consumo. Estigmatizados, os usuários padecem da ignorância sobre as substâncias que ingerem, escondem-se, em vez de buscar ajuda, e, mesmo quando não passam de consumidores eventuais, involuntariamente alimentam a dinâmica da violência armada e do crime que se organiza, penetrando instituições públicas.


Além disso, o Estado impõe aos escolhidos e classificados como "traficantes" -pelo filtro seletivo de nosso aparato de segurança e Justiça criminal- o futuro que pretende evitar: a carreira criminal. Digo "escolhidos" porque se sabe que a mesma quantidade de droga pode ser avaliada como provisão para consumo (quando o "réu" é branco de classe média) ou evidência de tráfico (quando o "preso" é pobre e negro).


Retornemos à primeira evidência: o acesso às drogas -não o impedimento- é a realidade. Ora, se essa é a realidade e nenhum fator manejável, no campo da Justiça criminal, pode incidir sobre sua existência para alterá-la, a pergunta pertinente deixa de ser: "Deveríamos proibir o acesso às drogas?". Trata-se de indagar: "Em que ambiente institucional legal o acesso provocaria menos danos? Que política de drogas e qual repertório normativo seriam mais efetivos para reduzir custos agregados, sofrimento humano e violência?".


Há ainda uma dimensão não pragmática a considerar. Não considero legítimo que o Estado intervenha na liberdade individual e reprima o uso privado de substâncias -álcool, tabaco ou maconha.

A ausência do álcool no debate -droga cujos efeitos têm sido os mais devastadores- revela a artificialidade (alguns diriam a hipocrisia) das abordagens predominantes.

Se o atual modelo foi derrotado pelos fatos, qual seria a alternativa? Proponho a legalização das drogas, e não apenas a flexibilização na abordagem do consumidor. O tráfico deveria passar a ser legal e regulado.

Isso resolve o problema das drogas? Não, mas o situa no campo em que pode ser enfrentado com mais racionalidade e menos injustiça -e menos violência, ainda que esse seja só mais um argumento, e não a única ou principal justificativa para a legalização.

Há quem considere que uma eventual legalização não exerceria impacto sobre a violência, uma vez que os criminosos migrariam para outras práticas. Discordo.
Acho que o efeito da legalização não seria desprezível porque: 1) sem drogas, seria mais difícil financiar as armas; 2) mudaria a dinâmica de recrutamento para o crime, que perderia vigor, pois outros crimes envolvem outras modalidades organizativas e outras linguagens simbólicas, muito menos sedutoras e acessíveis aos pré-adolescentes; 3) entraria em colapso a maldição do crack e seus efeitos violentos; 4) se esgotaria a principal fonte de corrupção; 5) finalmente, como pesquisas demonstram, em cada processo de migração, o crime perderia força e capacidade de reprodução.


Opiniões respeitáveis aprovam esses argumentos, mas alertam: nada podemos fazer antes que o mundo se ponha de acordo e decida avançar rumo à legalização das drogas. Discordo.

Se não nos movermos, não ajudaremos o mundo a se mover. Com prudência, mas também com audácia, temos de nos rebelar contra esse perverso relicário de iniquidades.

LUIZ EDUARDO SOARES é professor da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e da Universidade Estácio de Sá. Foi secretário nacional de Segurança Pública (2003).


O mito da legalização das drogas


O que é preciso ser feito para diminuir a violência nos centros urbanos do país?

A solução passa pela ação do Estado em retomar os espaços que hoje estão negligenciados e que, por isso, são ocupados por poderes paralelos, a fim de devolver a cidadania às pessoas que vivem sem a proteção da lei, como reféns do crime organizado.

A relação entre violência, crime organizado e tráfico de drogas é um tema complexo e, como tal, não permite soluções simplistas, por vezes até oportunistas, que costumam aparecer principalmente nos períodos de extrema violência, quando a população se sente mais fragilizada.

Uma dessas propostas é o mito de que legalização das drogas acabaria com o crime organizado.

Não se pode negar que o crime organizado tem como uma de suas sustentações financeiras o tráfico e a venda de drogas ilícitas. Parte considerável dos recursos do crime tem relação direta ou indireta com elas.

Do ponto de vista "empresarial", o crime organizado irá sempre procurar as oportunidades mais rentáveis.

Sequestro, tráfico de armas e de pessoas, jogo ilícito, falsificação de medicamentos, contrabando, pedofilia, extorsão, lavagem de dinheiro -todos eles financiam o crime organizado, que também engloba o comércio de drogas, mas que não pode ser colocado como consequência dele.

Se, nos anos 1920 e início dos anos 1930, a principal atividade econômica do crime organizado nos EUA estava baseada no contrabando de álcool, proibido pela Lei Seca, com a legalização dessa substância, o crime organizado não deixou de existir -apenas mudou de ramo.

O debate sobre a legalização tira o foco de questões mais importantes.
Uma delas é o entendimento de que a repressão ao tráfico seja focada prioritariamente no crime organizado, nos grandes traficantes e nos financiadores do tráfico, limitando, de forma efetiva, o acesso às drogas ilegais.


Nesse sentido, não adianta apenas prender os pequenos traficantes, peças facilmente substituíveis na engrenagem do crime organizado. É preciso identificar e tirar de suas posições de comando os verdadeiros líderes dessa engrenagem.
Da mesma forma, encarcerar usuários que não têm relação direta com o crime organizado não é a solução mais adequada. Quem usa drogas precisa de acesso à saúde e à assistência social, não de sanção criminal.


Há uma tendência em alguns países de descriminalizar o consumo, ou seja, tirar a pena de prisão para usuários de drogas e pequenos traficantes, aplicando-lhes sanções alternativas.

Essa tendência não afronta as convenções internacionais sobre o controle de drogas, que contam com a adesão universal dos países-membros das Nações Unidas. As convenções apontam quais são as substâncias que são ilegais, mas sua forma de aplicação é questão de decisão soberana de cada país.

Se a legalização das drogas não traria vantagens em termos de redução do poder do crime organizado, por outro lado, poderia ter consequências negativas incalculáveis, principalmente em termos de saúde pública.

Por isso, nenhum país está propondo a legalização das drogas ilícitas.
Além disso, os países que caminham em direção a descriminalizar o uso, evitando a pena de prisão a usuários, investem maciçamente em prevenção, assistência social e ampliação do acesso ao tratamento.


Nesse sentido, o debate relacionado às políticas sobre drogas não deve ser pautado somente sob a ótica da Justiça e da segurança, mas deve também incluir a perspectiva da saúde, da educação, da assistência social e, em um sentido mais amplo, da construção da cidadania.

E, nesse caso, fala-se principalmente da cidadania das pessoas que vivem em regiões nas quais não há a presença permanente do Estado. São pessoas que não se sentem amparadas pela lei e que ficam à mercê de lideranças paralelas efêmeras e muitas vezes imprevisíveis e tiranas.

Em vez de simplesmente propor a legalização de substâncias ilícitas (e prejudiciais à saúde), é preciso concentrar esforços para reocupar essas áreas e libertar as pessoas que vivem sob o domínio do crime organizado.


BO MATHIASEN , 45, dinamarquês, é o representante do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC) para o Brasil e o Cone Sul. É mestre em ciência política e economia pela Universidade de Copenhague e especialista em desenvolvimento econômico pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

(Ambos os textos foram extraídos de Folha de S. Paulo, 31.10.09)

Artur Freire Ribeiro On 29.10.09





Olá, nobres leitores.


Este blog está sendo construído para discutir a Língua Portuguesa.


Aguarde. Em breve, textos estarão disponíveis.


Um abraço,


Artur