A Tessitura

Este blog tem por objetivo principal tratar de assuntos vários relacionados à Língua Portuguesa, principalmente no que diz respeito à produção e leitura de textos.

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Artur Freire Ribeiro On 16.3.12




Por Sírio Possenti



De vez em quando, cito fatos que mostram que nossa língua é diferente da descrita pelos manuais de redação e mesmo pelas gramáticas tradicionais. Manual de Redação é questão de política interna. Uma editora ou um jornal podem evidentemente decidir pela adoção de um para regular a escrita dessa "empresa". Nenhum problema quanto a isso. É mais ou menos como a decisão do exército ou de um time de futebol de usar uniforme: tem alguma relação com a moda e o vestuário, mas trata-se de opções basicamente internas (torcedores e fãs podem usar as mesmas cores nas ruas). Importantíssimo, o efeito das decisões é passageiro: fora do quartel, os soldados estarão de roupa civil e, depois do jogo, os atletas abandonam o uniforme.





Depois do expediente na redação, os jornalistas também voltam ao português das ruas. Para ter certeza disso, bastaria ouvi-los nos bares e nas casas. E nas entrevistas que conduzem, claro. Mas não só. Vejam-se os casos abaixo.



L. F. Pondé, colunista da Ilustrada, escreveu em 27/02/2012: "Só levo a sério um argumento como este (quem me lê deve ser objeto de minha atenção) se nele estiver em jogo as leis do mercado, e olhe lá". Pelos manuais, ele deveria ter escrito "estiverem" (as leis do mercado estiverem). A inversão da ordem sujeito / verbo condiciona concordâncias assim desde sempre. E não é o caso de dizer que se trata da escrita de um jovem moderno, porque é fácil ver, por seus textos, que ele é um sujeito do século XVIII.



Considere-se este outro dado, do interessante texto de Hélio Schwartsman (Ilustríssima, 11/02/2012, p. 5): "Como mostram Ori e Rom Brafman (...), a existência de pessoas 'do contra' ('dissenters', em inglês) são nossa melhor esperança". O que explica essa ocorrência de "são" é o grande número de plurais à esquerda deste verbo. Os melhores candidatos são "mostram" (se um verbo está no plural, ou outro também deve estar, pensamos, sem saber que pensamos) e "dissenters", embora entre parênteses. Com seu olhar "cientificista" (às vezes exagerado, acho), o autor talvez encontre uma explicação melhor que esta.



Outro: os "olhos" dos textos de jornal são redigidos pelo editor da página a partir do texto. Frequentemente, traduz passagens do texto completo. Nem sempre fielmente, seja no que se refere ao sentido ou ao estilo. O olho do artigo "Em nome de Amália", de João Santana (Folha de S. Paulo de 06/03/2012) é "Amélia é uma injustiçada; há algo mais 'feminista' e poético do que uma mulher preferir fazer amor com seu marido do que gastar o dinheiro dele?". Sim: "preferir do que", construção que todos os pequenos guias de redação condenam. O manual de redação do próprio jornal deve condenar (não vi, mas aposto minha coluna!). Mas quem se dobraria ao manual diante de tamanha certeza de estar "correto"? Quem ainda vê aí um erro?



Um adendo: na Piauí do mês, uma das falas da mulher americana (há dois casais na cena etc.) em um desenho é: "Na verdade, às vezes prefiro acompanhai das mulheres que a dos homens...".



Os três casos deveriam obrigar a uma concepção de língua variável e de regras submetidas a diversos condicionantes, às vezes em luta na mesma frase. E a abandonar uma doutrina simplória do certo e do errado. Línguas são como outras manifestações culturais: inerentemente variáveis, mesmo no estrato que se considera superior. Caçar erros é pobreza mental.



Disponível em: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5665083-EI8425,00-Outras+notas.html









Artur Freire Ribeiro On 23.9.11


O uso do pronome CUJO
Muita gente quer saber onde está o dito “cujo”.
Caro leitor, não se assuste nem fique imaginando “coisas”. A verdade é que recebi dezenas de mensagens querendo “notícias” do pronome relativo CUJO.
Tenho um colega que costuma dizer que o pronome CUJO é um ser “semimorto”. Segundo ele, só existe na língua escrita. Todos entendem o sentido de uma frase em que apareça o pronomeCUJO, mas ninguém se lembra dele na hora de falar.
Isso se comprova na fala do brasileiro. Observe a si mesmo e depois me diga se não é verdade. Você falaria, por exemplo, no seu dia a dia, uma frase do tipo “Estava falando com o vizinhoCUJO filho foi contratado pelo Flamengo”?
Acredito que todos entenderiam a frase, mas que dificilmente seria usada na fala coloquial. Na verdade, a presença do pronome CUJO caracteriza o uso formal da língua portuguesa. Praticamente só é usado na linguagem escrita.
O curioso, entretanto, é que todos ou quase todos entenderiam a frase, ou seja, que “eu estava falando com o vizinho e que o Flamengo contratou o filho desse vizinho”.
Vamos, então, responder concretamente às perguntas do leitores:
1o) Só podemos usar o pronome CUJO quando existe uma relação de “posse” entre o antecedente e o substantivo subsequente. O “vizinho cujo filho” significa “o filho do vizinho (=o filho dele, o seu filho)”.
2o) Jamais usamos artigo definido entre o pronome CUJO e o substantivo subsequente. Falar “vizinho cujo o filho” está errado. O pronome CUJO sempre concorda em gênero e número com o subsequente: “vizinho CUJA FILHA, CUJOS FILHOS, CUJAS FILHAS“.
3o) O pronome relativo CUJO deve vir antecedido de preposição, sempre que a regência dos termos da 2ª oração exigir:
“Este é o vizinho DE cujo filho ninguém gosta.”
(O verbo GOSTAR é transitivo indireto = GOSTAR DE alguma coisa – “Ninguém gosta DO filho do vizinho”)
“Este é o vizinho EM cujos filhos todos confiam.”
(CONFIAR EM = “Todos confiam NOS filhos do vizinho”)
“Este é o vizinho A cujos filhos fizemos mil elogios.”
(=”Fizemos mil elogios AOS filhos do vizinho”)
“Este é o prefeito COM cujas ideias não concordamos.”
(=”Não concordamos COM as ideias do prefeito”)
“Este é o prefeito CONTRA cujas ideias sempre lutamos.”
(=”Sempre lutamos CONTRA as ideias do prefeito”)
Você está achando tudo muito estranho? Que o CUJO é muito feio?
Tudo bem, eu respeito a sua opinião. Mas não esqueça: nem tudo que é feio ou estranho está errado.

INTERVIR ou INTERVIER?
Não devemos confundir o INFINITIVO dos verbos (=INTERVIR) com o FUTURO DO SUBJUNTIVO (=INTERVIER).
Use o seguinte “macete”:
Quando o verbo vier antecedido de preposições (=A, DE, PARA…), use o INFINITIVO:
“Ele foi obrigado A INTERVIR no caso.”
“Ele foi proibido DE INTERVIR no caso.”
“Ele tomou esta decisão PARA INTERVIR no caso.”
Quando o verbo vier antecedido das conjunções (=SE ou QUANDO) ou do pronome QUEM, use oFUTURO DO SUBJUNTIVO:
SE o presidente INTERVIER no caso, poderá haver protestos.”
QUANDO o presidente INTERVIER no caso, o problema será
solucionado.”
QUEM não INTERVIER no caso será duramente criticado.”
Leitor aponta um erro jornalístico:
“O partido tem uma histórica dissidência de 20 votos, que poderá se ampliar, sobretudo na bancada de Minas Gerais, se o governador não intervir nas discussões”.
O leitor tem razão. O certo é “…SE o governador não INTERVIER nas discussões”.

Quando eu VIR ou VER?
Leitor quer saber qual é a forma correta: “Quando eu VIR ou VER uma amiga, falarei com ela.”
A presença da conjunção subordinativa temporal QUANDO indica que devemos usar o verbo VERno FUTURO DO SUBJUNTIVO. E aqui está o problema: VER é INFINITIVO. O FUTURO do SUBJUNTIVO do verbo VER é:
Quando eu VIR, tu VIRES, ele VIR, nós VIRMOS, vós VIRDES e eles VIREM.
Portanto, o certo é: “Quando eu VIR uma amiga, falarei com ela.”
Observe outros exemplos:
SE vocês VIREM a verdade, ficarão surpresos.”
“Devolverei o documento, QUANDO nos VIRMOS novamente.”

Dedicação A ou À você?
Leitor quer saber a minha opinião a respeito da crase na frase de uma antiga propaganda: “Casas XYZ. Dedicação à você e respeito ao Brasil…”
Antes de “você”, jamais haverá crase, pois não há artigo definido.
Eu tenho respeito “a você”, e as Casas XYZ prometem “dedicação a você”.
Artur Freire Ribeiro On 14.1.11


Sírio Possenti
De Campinas (SP)

Um fenômeno que se tornou agudo nesta fase da história desafia estudiosos - sociólogos, psicólogos, psicanalistas, antropólogos, cientistas políticos, filósofos, analistas do discurso etc.
(Alguns dirão que eu não deveria me ocupar de questões como esta, que deveria me restringir às questões linguísticas. Ocorre que uma das questões fundamentais das diversas de que tratam os estudos da linguagem é exatamente esta: em cada sociedade, há restrições sobre o que se pode ou não se pode dizer e sobre espaços ou contextos em que se podem dizer coisas que não se podem dizer em outros - por exemplo, quais discursos são privados (e, portanto, mais livres, embora não circulam, ou por isso mesmo) e quais são os discursos pelos quais seus "autores" podem pagar (ou receber): a noção de autoria se caracteriza no ocidente, entre outros, por dois traços complementares: o "autor" pode ser pago por suas obras, mas, em compensação, pode ser responsabilizado - preso ou ameaçado - pelo que diz. A propósito, é claro que neste texto não serão encontradas algumas palavras e expressões que eu diria em outros espaços, para me referir àqueles de que vou falar...).
A questão de que vou tratar muito brevemente foi formulada de forma precisa, a meu ver, por Renato Janine Ribeiro (Para quem não conhece o 'Estadão'), há quase um ano, em artigo publicado no Estado de S.Paulo. Janine fazia uma análise do comportamento do dito jornal. O mote era a proibição pela justiça de publicar certas notícias sobre o filho de Sarney, Fernando (todos os dias o jornal publica uma nota, cujo título é O Estado está sob censura há XX dias (já são mais de 500). A questão que Janine formulou está expressa no seguinte trecho, que vou comentar brevemente, grifando o que mais me interessa:
"Mas, voltando ao fim da repressão política pelo Estado brasileiro, isso não quer dizer que nossa sociedade tenha reconhecido o direito à divergência. Um espírito maniqueísta, opondo bem e mal, domina muitos cidadãos que falam sobre política, costumes e o que seja em nosso país.
Por incrível que pareça, nesse ponto o Estado brasileiro e suas instituições parecem mais adiantados que a sociedade. Comecei este artigo criticando opiniões de leitores e internautas, justamente porque eles condenam seus desafetos com mais rapidez do que faria qualquer tribunal, hoje, em nosso país.
Em outras palavras, a democracia por vezes está mais forte nas leis e nas instituições do que no povo do qual - segundo o artigo 1º de nossa Constituição - ela emana. Ela ainda é um texto, mais que uma prática".
No segundo dos parágrafos citados, Janine se refere ao começo de seu texto, em que comenta que lê "nas cartas de leitores a O Estado de S.Paulo e, sobretudo, nos comentários de internautas em sua página na web ..., "expressões preconceituosas, carregadas de ódio".
Pois bem, este é o problema. O mote poderia ser a tuitada da tristemente famosa Mayara, que, logo depois das eleições recentes, sugeriu que se afogassem nordestinos. Também poderia considerar como pretexto os comentários (se é que assim podem ser chamados) de leitores, em geral anônimos, opinando sobre colunas que tratam de questões polêmicas. O tema pode ser a extradição de Battisti, a eleição de Dilma, uma discussão da pedofilia, ou, o que poderia parecer mais neutro, a questão do feminino da palavra "presidente".
Há comentários civilizados. Concordam, discordam, são mais ou menos veementes, mas são civilizados. Poderiam ser expostos em público e assinados. Mas muitos são apenas asquerosos: revelam uma burrice espantosa, desconhecimento total do tema. Mas, principalmente, são grosseiros, agressivos e, quase invariavelmente, não são assinados. Ou são assinados por óbvios - em geral, pouco inteligentes - pseudônimos.
O fenômeno permite numerosas perguntas, cujas respostas não são evidentes (só mesmo seguindo o "método" dos comentários alguém poderia supor que tem respostas claras: segundo eles mesmos, esses "comentadores" poderiam ser considerados simplesmente idiotas e seus autores deveriam ser condenados ao linchamento).
Algumas perguntas que me ocorrem são:
a) Esses cidadãos são simplesmente ignorantes ou fingem sê-lo porque acham que dizer baixarias é engraçado? Seu problema é apenas o baixíssimo nível de exigência quando se trata de humor?
b) É o anonimato a condição que lhes permite dizer barbaridades? Em outros termos: essas pessoas diriam as mesmas coisas se fossem identificadas? Ou em público?
c) Suas grosserias são manifestações "fantasiosas", "ficcionais", ou são a expressão do que tais pessoas de fato pensam?
d) Seu comportamento é coerente com o que elas escrevem anonimamente, ou trata-se de "gente boa" (bons pais, bons filhos, bons amigos, bons namorados, bons motoristas) que aproveita o anonimato para expressar seu "lado obscuro" (a propósito, vale a pena ler, de Elisabeth Roudinesco, O lado obscuro de nós mesmos; uma história dos perversos. Rio: Zahar)? Vale anotar que os americanos estão discutindo o grau de influência de postagens na internet sobre o rapaz que cometeu o atentado que feriu uma deputada e outras pessoas e matou uma menina na semana passada; Sara Palin patrocinava um espaço no qual cabeças de diversos políticos eram alvos. Brincadeira? O fato é que foram retirados ao ar...
e) A psicanálise ensina que o ser humano não se caracteriza só pela razão, pela consciência, mas também por um conjunto de pulsões, de instintos, que a civilização domina e controla. Se a tese for verdadeira, essas manifestações grosseiras e agressivas seriam apenas a expressão privada e anônima de tais pulsões (de matar, de humilhar, de agredir o diferente, seja uma posição política, uma preferência por um clube de futebol, uma opção sexual etc.)? Se este for o caso, podemos considerar que estamos diante da necessidade de um novo aprendizado em relação ao uso do espaço privado; ou será que os que assim se manifestam o fazem como nos sonhos (não controlamos os sonhos...) ou como se contassem piadas entre amigos depois de beber? É até possível que a grosseria e a agressividade de seus pequenos escritos seja uma das condições para que se comportem civilizadamente em público (ter armas de brinquedo não torna necessariamente as pessoas violentas etc.).
f) Mas será que não são eles/elas que, em grupo (sozinhos, em geral são covardes - aqui, eu reprimo o desejo de escrever outra palavra), atacam os diferentes, nas ruas, nas festas, nos estádios, nas prisões?
g) E se forem doentes, como Jared Lee Loughner, o atirador do Arizona?
Perguntas!
 http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4884564-EI8425,00-So+perguntas.html
Artur Freire Ribeiro On 7.11.10
Sírio Possenti
De Campinas (SP)
Há algumas semanas, comentei aqui a posição de João Ubaldo Ribeiro sobre "vícios" de linguagem. Alguns dados talvez lhe soassem mais como manias - "inicializar" seria o caso mais votado, já que nove em cada dez palpiteiros mencionam o verbo.
Volto ao tema dos intelectuais falando de língua. No meio de uma razoável matéria sobre questões de língua, suas mudanças, a apropriação de certas construções por escritores etc, Daniel Piza, em sua coluna semanal no Estado de S. Paulo (25/7/2010) escreveu, comentando o que considera "o equívoco de acordos ortográficos" de quererem ser mais do que são: "isso sem entrar no mérito dos critérios, que eliminaram acentos como em 'voo' e mantiveram em 'já', como se houvesse outra pronúncia para a vogal senão a aberta".
É obviamente uma questiúncula. O que me leva a comentar o caso é que ele é sintomático de como a língua é mal analisada. Fala-se de dicionários, de mudanças, da diáspora das palavras, da relação com outras línguas etc. sem dizer bobagens porque são questões muito gerais e sobre elas a unanimidade é total. Soa sábio e moderno ao mesmo tempo. É mais ou menos como ser a favor da conservação do meio ambiente e dos direitos humanos. Todo mundo sabe dizer coisas sensatas sobre isso. O complicado será se alguém perguntar o que fazer com uma perereca ou com determinado homem violento (prende, trata como louco, condena à morte?). Questões específicas não podem ser tratadas a enxadadas.
Pois o acento em "já" não é para marcar a abertura da vogal "a". É para marcar sua tonicidade: ou seja, decidiu-se que a vogal dessa palavra é marcada por um acento gráfico porque ela é tônica, e não porque é aberta. Para entender a diferença, compare-se "dá" do verbo "dar" com a contração "da", de "de+a". "Dá" é um monossílabo tônico; "da" é átono. Uma análise acústica mostraria que, em "dá casa" e em "da casa" (o exemplo pode não ser muito bom), os "da" são diferentes. Mas as duas vogais são abertas, embora, claro, a abertura seja maior em "dá".
Menos aberta mesmo, perceptivelmente, é a vogal "a" em palavras como "antes" e "lã" (tanto que há quem defenda que não é a mesma vogal de "dá!, mas outra, uma nasal). Observe-se que as duas são tônicas: a diferença destes casos em relação aos de "já, dá", é a nasalização, que co-ocorre com alçamento ou fechamento: os lábios se aproximam mais para proferir o "a" de "antes" do que o de "dá" e mesmo o de "da".
Logo, a observação de Piza é um equívoco. Não produz nenhuma consequência grave na vida quotidiana, mas mostra que os intelectuais não conhecem gramática (sabem defender ou atacar generalidades e listar sempre os mesmos dez casos que consideram uma vergonha, mas não passam disso). Ocorre que um erro desta dimensão, em outros domínios, pode produzir catástrofes. Se um controlador de vôo trocar uma categoria por outra, como Piza em seu texto, o avião pode pousar fora da pista ou bater em um prédio.
Disse que o efeito de um erro assim pode não se grave. Retifico: é gravíssimo. Quase todas as autoridades educacionais cometeriam o mesmo erro. Muitos professores ou pais de alunos que vão dar palpites nas reuniões pedagógicas (às quais é bom que vão, eu acho; mas seria bom que pressionassem na direção certa) não fazem esta distinção e outras parecidas. É uma das razões - porque pequenos erros desse tipo são cometidos aos milhares - pelas quais nossas escolas são o que são. É a tal da santa ignorância, que produz ideias de jerico segundo as quais, por exemplo, Roma "de trás pra frente" é amor, tese que não considera as diferenças de pronúncia do "r", pelo menos; ou, pior, que além "de trás pra frente" é mela, sem dar-se contar de que, em além a vogal é um e, e emmela a vogal é um é. Mais que isso: mela começar com m e além termina com y nasalizado, porque além se pronuncia com um ditongo final e nasalizado, como, aliás, as gramáticas informam.
Ou seja: aviões caem. Ou são derrubados todos os dias.

Artur Freire Ribeiro On 24.7.10
SIM

Separação era instituto anacrônico
PAULO LÔBO

Para se divorciar, o casal necessitava promover, antes, a separação judicial ou comprovar a separação de fato por mais de dois anos. Assim determinava a Constituição, até a emenda constitucional nº 66 (EC 66), recentemente promulgada, que suprimiu esses requisitos.
A razão de ser da separação judicial, antes do divórcio, não era o nobre propósito de propiciar aos cônjuges tempo para reflexão para essa importante decisão de vida.
O fim do casamento não é fruto da irreflexão, mas epílogo do desgaste continuado ou do erro de escolha do cônjuge, de nada servindo prolongar esse sofrimento por imposição do Estado.
Esse anacrônico instituto era, muito mais, resíduo histórico da interferência religiosa na vida privada brasileira. Na Colônia e no Império, a família era regida pelo direito canônico, que apenas admite a separação de corpos, sem dissolução do casamento.
A República, que se pretendia laica, manteve a indissolubilidade do casamento e a separação de corpos canônica, dando-lhe o nome de desquite até 1977, quando foi rebatizada de separação judicial. Mas até mesmo os constituintes de 1988 não conseguiram extingui-la.
Só agora, com a EC 66, o Estado laico chegou ao casamento, consumando a liberdade de constituí-lo e dissolvê-lo. É com essa finalidade, de confiança na autonomia responsável dos cônjuges, que deve ser interpretada.
O argumento da minoria dos especialistas de sobrevida da separação, apesar da EC 66, merece respeito, mas não se sustenta. No essencial, dizem que a Constituição suprimiu os requisitos, mas não os revogou na legislação ordinária.
Há grande consenso, no Brasil, sobre a força normativa própria da Constituição, que não depende do legislador ordinário para produzir seus efeitos. As normas constitucionais não são meramente programáticas, como antes se dizia.
É consensual, também, que a nova norma constitucional revoga a legislação ordinária anterior que seja com ela incompatível. A norma constitucional apenas precisa de lei para ser aplicável quando ela própria se limita "na forma da lei".
Ora, o Código Civil de 2002 regulamentava precisamente os requisitos prévios da separação judicial e da separação de fato, que a redação anterior do parágrafo 6º do artigo 226 da Constituição estabelecia.
Desaparecendo os requisitos, os dispositivos do Código que deles tratavam foram automaticamente revogados, permanecendo os que disciplinam o divórcio direto e seus efeitos. O entendimento de que permaneceriam importa tornar inócua a decisão do constituinte derivado e negar aplicabilidade à norma constitucional.
Esse argumento equivocado reaparece sempre que a Constituição promove alterações profundas na vida privada. O mesmo ocorreu quando ela instituiu, em 1988, o revolucionário princípio da igualdade entre os cônjuges, não faltando quem sustentasse que os direitos e deveres desiguais entre marido e mulher permaneceriam até que o Código fosse alterado, o que só ocorreu em 2002.
Ainda bem que nossos tribunais sempre aplicaram imediatamente o princípio. Mais: o Código de 2002 não trata da família monoparental (um pai ou mãe, apenas, com seus filhos) protegida pela Constituição, mas o juiz não precisa de lei ordinária para assegurar seus direitos.
Não podemos esquecer da antiga lição de, na dúvida, prevalecer a interpretação que melhor assegure os efeitos da norma, e não a que os suprima. Isso além da sua finalidade, que, no caso da EC 66, é a de retirar a tutela do Estado sobre a decisão tomada pelo casal.

PAULO LÔBO, doutor em direito civil pela USP, é diretor do IBDFAM (Instituto Brasileiro de Direito de Família). Foi membro do CNJ (Conselho Nacional de Justiça)







NÃO

Instituto é independente do divórcio
ALEXANDRE MAGNO MENDES DO VALLE

No dia 13 de julho de 2010, o Congresso publicou e fez vigorar a emenda constitucional nº 66, conhecida como "PEC do divórcio".
Nessa emenda, o legislador altera o parágrafo 6º do artigo 226 da Constituição de 1988, afirmando que "o casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio".
Com essa mudança, suprime a exigência do requisito temporal de um ano da separação judicial para o divórcio por conversão e de mais de dois anos de separação de fato para o divórcio direto.
Acaba com as espécies "divórcio direto e por conversão", mantendo apenas o gênero "divórcio", e faz emergir uma forte divergência no meio forense sobre a extinção da ação de separação judicial.
O quadro é de atordoamento dos operadores do direito de família, que tentam divisar os exatos reflexos da emenda e apostam que a pá de cal virá de uma futura construção pretoriana, por meio das decisões dos tribunais.
Aqueles que defendem a extinção da separação também sustentam que não há mais sentido para sua manutenção. Asseveram que a vontade do legislador seria a de manter os estados civis de casado e de divorciado, mas não o de separado.
Os adeptos dessa corrente consideram de fato a separação como acessória do divórcio por conversão. E, em direito, vigora a regra nas relações acessórias segundo a qual a extinção do principal resulta na automática extinção do acessório.
Entretanto, deixam de observar que a separação judicial sempre foi um instituto independente do divórcio, com previsão própria e autônoma no ordenamento civil.
No atual Código Civil, a separação tem a finalidade de dissolver a sociedade conjugal, pondo fim aos deveres de coabitação e fidelidade recíproca e ao regime de bens sem romper o casamento, facultando aos casais, de forma ímpar, o restabelecimento da sociedade a qualquer tempo.
O divórcio, a seu turno, dissolve tanto a sociedade conjugal quanto o vínculo conjugal. Põe fim ao casamento, sem oportunizar aos casais e à família, como um todo, qualquer hiato de tempo para reflexão sobre os efeitos do rompimento, nos sonhos e nos projetos de vida em comum.
Com a emenda, abre-se um espaço para o rompimento imediato do casamento. Assim, uma pessoa pode se casar em um dia e pedir o divórcio no seguinte.
O divórcio ganha independência da exigência de uma prévia separação judicial ou de fato, mas isso não significa que não possa ocorrer qualquer dessas duas hipóteses.
O que se deve refutar é a tese da extinção da separação, diante deste novo cenário, verdadeiramente preocupante, em que já se vislumbra uma possível banalização do casamento e um enfraquecimento das uniões conjugais.
A separação deixa de ser um antecedente lógico e necessário da espécie divórcio por conversão.
Surge, agora, como uma via judicial disponível para aqueles casais que pretendem interromper momentaneamente a relação conjugal, mas que não estejam seguros da vontade de pôr fim ao casamento e das consequências do rompimento do vínculo conjugal.
Para o expressivo segmento da sociedade que não vê com bons olhos a presente alteração do sistema, resta a separação judicial ou extrajudicial (nos cartórios) como via legal capaz de emprestar um fôlego a mais de vida para o casamento nas relações familiares.
Um espaço aberto para o diálogo conjugal com a interrupção da sociedade conjugal, mas sem a incontinente aniquilação do vínculo do casamento.

ALEXANDRE MAGNO MENDES DO VALLE é juiz da 3ª vara de família de Uberlândia (MG) e professor da Faculdade Católica de Uberlândia.
Artur Freire Ribeiro On 6.7.10





Sírio Possenti 
(de Campinas, SP)







Conosco

Um jornalista veterano, Nêumane Pinto, entrou no caso Dunga de modo peculiar. Pediu que ele use os pronomes oblíquos adequadamente (figuras públicas, mesmo técnicos de futebol de origem mais do que popular, deveriam falar "direito"). É que Dunga andou dizendo "com nós" mais de uma vez em entrevistas. Nada estranho para quem é do sul (como eu), e principalmente para descendentes de imigrantes (como eu). Dunga deve falar alemão razoavelmente, italiano com igual proficiência e um pouco de japonês, a não ser que tenha vivido apenas com patotas brasileiras no seu tempo de vida no exterior, como acontece, acho, com as caravanas de jornalistas, porque nenhum deles consegue dizer özil e todos dizem cazilas. Curiosamente, aqui acham que Dunga não sabe português.

Não sei se é o caso de cobrar de um treinador de futebol que fale como um acadêmico (da ABL) escreve. Acho que seria até mais correto cobrar de um jornalista veterano que aprenda alguma coisa sobre variedades linguísticas que vá além do folclórico. Até porque, aposto, a gramática de Nêumane, se é que tem uma, deve dizer que "nós", na expressão "com nós", é pronome um oblíquo tônico (falei sobre isso aqui há não muito tempo). Assim, Dunga falaria oblíquos. Além disso, ele diz frequentemente "me deixem trabalhar". E "me" é oblíquo.

O caso me lembrou de uma historinha que o Marcuschi (os do ramo sabem quem é; os outros, não, mas o problema é deles; ao Google!) contava: um jornalista pernambucano fez coluna cheia de ironia em que dizia coisas como "não se deve votar no Arraes". Por que? perguntavam. E ele respondia: "ele fala muito baixo, ninguém entende o que ele diz". Critério ridículo para não votar num governador! (Aliás, uns dizem que Lula não deveria ser presidente - ou que nem é! - porque fala muito e de improviso; outros acham que Dilma não deve ser presidente porque não é muito boa no quesito falação. Durma com o barulho que fazem os tais analistas políticos!)

Agora suponhamos, só de brincadeira, que Dunga dissesse que "Messi faz 23 anos e joga para ganhar copa antes que Maradona" (manchete do Terra no dia 24/6 durante horas). Nada grave, eu acho. Mas um Nêumane da vida poderia alegar que isso só seria possível se Messi fosse campeão antes de 1986, isto é, antes de nascer! Que, portanto, a manchete deveria dizer algo como "mais jovem do que Maradona", e não "antes" dele. È uma besteira, eu acho. Mas alguma coisa do tipo "com nós". Ambas as formas podem ser substituídas por outras, com melhor efeito, segundo o veículo, mas ambas são perfeitamente desculpáveis.

Bordões

Até gosto de um bordão de Milton Leite, "que beleza"!", que ele profere ironicamente quando o desfecho da jogada é um fiasco. E não desgosto de sua suposição do que pensaria um atacante pouco letrado que tem chance de marcar um gol e erra bisonhamente ("agora eu vou se consagrar"!). Sim, ele embute uma avaliação negativa do atleta, e em termos lingüísticos, mas sejamos um pouco bem humorados!

Nas transmissões dessa Copa, ele tenta saber como se diz "que beleza"! nas línguas dos países cujo jogo está narrando. Às vezes, é assessorado pelo comentarista que o acompanha (ou por algum jogador que morou "no estrangeiro", como Juninho, que jogou séculos nas França). Em italiano, segundo Milton Leite, é "Che bello".

E como será que se diz "Que bonito!"? Hein, hein? Se o autor da obra fosse o Dunga ou algum jogador, ai deles!

Dunga e a impressa Dunga andou pedindo desculpas ... aos torcedores, por seu comportamento em uma entrevista. E tem gente que acha que ele é bobo, só porque não é alegre!

Raciocínios de jerico Dunga acha que quem o critica quer a derrota da seleção. A imprensa acha que quem a critica quer que ela se cale. Eles se merecem!

Como disse já na semana passada, minhas críticas à imprensa não significam a defesa de Dunga. Como tem gente que lê assim, acho bom explicar que posso ser contra os dois lados. Posso querer outro mundo, no qual o técnico seja outro e sejam outros o time e a imprensa! Muitos acham que criticar a imprensa é ser contra sua liberdade, seu direito de opinião. Mas esta é uma lógica burra. Criticar a imprensa é apenas dar a ela o tratamento que ela dá aos outros. (Sei que dizer "a imprensa" é uma generalização inadequada. Mas é como ela mesma se designa).

E que não dá a si mesma. Os jornalistas esportivos (e os jogadores que agregam nas transmissões) elogiam demais os trabalhos de seus coleguinhas. As transmissões de cada canal, segundo os chapas, são sempre de arrebentar. As colunas dos parceiros são sempre ótimas. E raramente mencionam alguém de outra rede ou jornal.